terça, 28 de março de 2017

Confeitaria 101: baunilha

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É muito difícil você já ter visto uma receita de confeitaria que não leve baunilha, nem que seja um tantinho só. Mesmo se for um bolo de chocolate, as receitas geralmente pedem um pouco de baunilha, não é?
No post de hoje, vamos conhecer mais sobre a baunilha, quem ela é, da onde veio, pra onde vai e porquê ela se mete em tudo.

 

Mão segura fava de baunilha
O que é a baunilha, afinal?
A gente usa essa bendita em tudo quanto é receita, mas às vezes não fazemos ideia do que é, não é? Baunilha é uma especiaria tropical, um aromatizante extraído de uma planta. Ela vem da vagem de uma orquídea trepadeira do gênero Vanilla, que possui mais de cem espécies. De acordo com Harold McGee, provavelmente os primeiros a cultivarem a Vanilla planifolia foram índios mexicanos há mil anos atrás. Foram os espanhóis que deram o nome de “vainilla”, o diminutivo da palavra castelhana que significa “vagem”. Os franceses, no entanto, foram os responsáveis por levar a orquídea para ilhas no litoral da África, que hoje produzem algumas das mais conhecidas favas de baunilha no mundo: Madagascar, Reunião e Comores, com a baunilha bourbon. Além deles, as baunilhas da Indonésia e do Taiti também são amplamente conhecidas como as de melhor qualidade no mundo.

 

Orquídea baunilha Essa é a cara da Vanilla planifolia.
Foto: Blog Cultivando Orquídeas e Ideias

 

Então a gente come uma planta?
Não, não. A gente come as sementes da vagem da orquídea. Aqueles pontinhos pretos tão famosos e tão buscados em sobremesas são as sementes que ficam protegidas, dentro da vagem. Pra chegar neles, você precisa cortar a vagem e raspar as sementes.

Qual o sabor da baunilha?
Pra mim, baunilha é um daqueles sabores tão icônicos que eu uso para descrever outros sabores e pessoalmente não sei bem explicar. É tipo “baunilha tem gosto de… baunilha”, sabem? Um bolo sem baunilha não tem profundidade de sabor e parece que está faltando algum gosto ali. Esse diferencial é da baunilha.
Cientificamente falando, o principal composto da baunilha é a vanilina, que é o que confere o famoso “aroma de baunilha” que a gente conhece. Mas ele não é a única coisa na vagem, que possui mais de 200 compostos voláteis. Por isso, cada tipo tem seu diferencial e personalidade, podendo trazer tons amadeirados, florais, defumados, caramelizados, terrosos, etc. Como exemplo, as favas originais da Indonésia costumam ter menos aroma de vanilina e mais tons defumados, enquanto a fava do Taiti se aproxima mais do floral.

É só plantar a orquídea no jardim, então.
Não, miga sua loka. O processo pra chegar naquela fava pretinha, elástica e cheirosa que a gente ama é extenso, complexo e manual – parte do motivo pelo qual a especiaria é tão cara.
Vou tentar ser o mais breve possível:
Após polinizar manualmente as flores da orquídea, seis a nove meses depois, as vagens começam a amadurecer. Dentro delas, as sementinhas estão envoltas num fuzuê de açúcar, gordura, aminoácidos e outras coisas, mas a vagem só libera todo aquele cheiro incrível como uma forma de defesa natural. Ou seja, pra produzir baunilha, é preciso “matar” a vagem para que ela libere esses compostos. Isso é feito expondo as vagens à alta temperatura – sob o sol, ou água quente ou vapor – e é nesse momento que elas saem do verde e passam pra cor marrom escura que conhecemos. Isso é feito repetidas vezes, por vários dias. Nesse processo, também se evapora parte da umidade da vagem e é um tipo de esterilização para microrganismos que ficam na superfície. Por fim, as vagens são alisadas à mão, ficam secando por mais algumas semanas e depois permanecem estocadas, maturando, para desenvolver ainda mais o sabor no processo de “cura”. As vagens mexicanas, por exemplo, ficam “curando” por vários meses antes de serem comercializadas.
Isso tudo é feito praticamente à mão, em fazendas e por pequenos produtores. Não há máquina que entenda a delicadeza necessária pra polinizar uma orquídea, gente. Então, quando achar que a baunilha está cara, lembre-se desse “breve” textão.

 

Favas de baunilha no prato

 

Onde e como se usa baunilha na culinária?
Normalmente, a baunilha entra em receitas doces, de confeitaria, por pura questão de tradição. No entanto, seu aroma pode combinar com praticamente qualquer comida no sentido de acrescentar profundidade e equilíbrio. Ela vai particularmente bem com lagosta e carne de porco, por exemplo.
Utilizam-se as sementes (aqueles pontinhos) da baunilha nas preparações, mas a vagem também pode servir para extrair aroma e sabor. Um exemplo é ferver o leite do creme patisserie com a vagem e, depois, retirá-la. Ela pode ser usada para produzir um extrato de baunilha caseiro, por exemplo, que já ensinei aqui no blog há muitos anos atrás. Mais adiante vou ensinar como aproveitar ao máximo sua fava.
Tanto para o extrato, feito com álcool, quanto para uma extração feita com a fervura do leite, o mais indicado é sempre utilizar o maior teor de álcool ou gordura possível. Isso porque compostos voláteis (ou seja, aromas) em geral são mais solúveis em lipídios e álcool que em água, portanto quanto mais álcool ou gordura no líquido de extração, mais sabor você vai conseguir.
Não dá pra afirmar com exatidão o quanto de fava você vai usar por receita, porque cada fava tem sua intensidade distinta (o que também depende da época em que foi produzida). O ideal é você avaliar a fava que você tem, dando aquela cheirada. Se achar que ela está super aromática, pra uma receita de cupcake de 12 unidades, meia fava é suficiente. Correlacionando com o extrato (ou essência), se ele estiver muito aromático também, meia colher de chá é suficiente.
Utilizando a baunilha em sua forma líquida como extrato ou essência, acrescente sempre próximo ao fim da receita. Se for uma receita quente, então, coloque somente como finalização, pois se você acrescentar com a temperatura muito alta, os compostos aromáticos vão evaporar e ficar muito pouco no preparo.
Detalhe importante: se estiver usando essência – ou seja, a versão INDUSTRIAL e SINTÉTICA de baunilha –, tente não caprichar na quantidade que vai na receita. As essências artificiais, se utilizadas em demasia, costumam deixar um subtom amargo. Se estiver usando um extrato natural, você pode até caprichar no líquido. Às vezes, eu coloco mais do que o indicado, só porque gosto mesmo de baunilha.

Como armazeno minhas favas de baunilha?
Enquanto não for utilizá-las, guarde-as em potes de vidro herméticos, bem vedados (daqueles de borrachinha, sabe?). Se tiver como guardar à vácuo, melhor ainda, olha aí.

 

Favas de baunilha à vácuo

 

Nossa, mas ela ainda é cara demais, Ju. Vale a pena?
Pessoalmente, não acho que vale a pena comprar favas para usar as sementes no dia a dia. O preço pelo qual ela chega aqui no Brasil não compensa esse tipo de uso. Por outro lado, eu acho que vale imensamente a pena para fazer um extrato caseiro de baunilha. O extrato dura provavelmente a sua vida inteira, se você permanecer usando e renovando o álcool e as favas, e se você deixar por bastante tempo e com boas favas, ele fica com tanto aroma que às vezes é melhor do que as sementes.
O que eu recomendo é: investir uma vez em 6 ou 8 favas de baunilha da melhor qualidade possível (compre bourbon de Madagascar, ou as do Taiti que são difíceis de encontrar, mas são divinas), usar as sementes de 5 ou 6 delas para suas receitas e depois usar as vagens e as sementes das que sobraram no extrato caseiro. Joga tudo lá, deixa maturando eternamente. Aí um belo dia, quando a grana estiver ok, quando lhe der aquele surto gourmet e você comprar favas de novo (uma ou duas), você as usa tirando as sementes, vai lá no seu extrato caseiro, retira uma ou duas e substitui pelas mais novas.
E não, não jogue fora essas que você tirou. A tia Juliana vai passar agora todas as receitas da felicidade para você usufruir ao máximo das suas preciosas favas. Vem comigo!

Comprei favas. E agora? Como as uso?
Pra começar, você vai amaciar essa belezinha. Amasse a fava entre seus dedos, vá apertando e afofando ela, em todos os pontos, do começo ao fim. Depois, coloque-a em uma tábua e com uma faquinha bem afiada, sem ser de serra, você vai segurar uma ponta da fava com os dedos e ir cortando a fava com a faca no sentido longitudinal. Ou seja, você vai dividir ela ao meio, pra chegar nas sementinhas.
Depois que abrir, use uma colherzinha ou a parte de trás da faca, para raspas as sementinhas pra fora da fava. Faça com firmeza, mas delicadamente, para não retirar o sumo da fava, que é ligeiramente amargo e não fica bonito no meio do bolo.
Use as sementinhas conforme desejar!

 

Extratos de baunilha caseiros

Extrato de Baunilha Caseiro
Eu já ensinei direitinho como fazer aqui. Você não precisa usar somente 3 a 5 favas de baunilha para 300ml de vodca. Você pode colocar até 10 favas pra 300ml se quiser, fique avon. O mínimo, que eu recomendo, são 3 por 300ml.
Use as sementinhas em alguma receita – ou as coloque no próprio extrato, se preferir. É legal pois, assim, toda vez que você usar o extrato, ele vai carregar algumas lindas sementinhas junto.

 

 

Açúcar baunilhado

Açúcar Baunilhado
Quando seu extrato estiver plenamente maturado e você quiser substituir as favas, retire as velhas e seque-as com cuidado com papel toalha. Seque bem, mas bem mesmo! Então, deixe-as quietinhas para continuar secando naturalmente perto do seu fogão por uns dias, até que elas endureçam. Dois ou três dias já deu. Quando estiverem bem durinhas, guarde em um pote bem fechado e vá juntando favas assim até obter pelo menos uns 10g de fava. Isso porque a receita para açúcar baunilhado pede 10 partes de açúcar para 1 parte de fava, é só pra não ficar tão difícil de processar tudo junto. Abaixo um exemplo de quantidades para o açúcar, de acordo com a receita da Dani Noce que é a que eu uso.

9g de favas de baunilha secas
90g de açúcar (pode ser granulado ou refinado)

Quando tiver essas quantidades, processe os dois juntos até obter um pó bem fininho. Peneire e guarde em um potinho fechado. Use esse açúcar na mesma quantidade do extrato/essência e substitua no açúcar da receita. Exemplo: se for usar uma colher de chá do açúcar, retire uma colher de chá do açúcar normal.
Além de deixar a receita com o sabor de baunilha, ele ainda simula os pontinhos das sementes.

 

 

Açúcar aromatizado com baunilha

Açúcar Aromatizado
Depois que as favas secarem, outra opção é também jogar as favas dentro do seu pote de açúcar comum. É só deixar lá dentro que ele, aos poucos, vai aromatizar todo o ingrediente.

 

Dicona da Ju
Eu compro minhas favas quando tenho a oportunidade de viajar para os EUA, ou quando alguém que eu conheço vai pra lá. Compro do site IndriVanilla, que faz o intermédio direto com pequenas produções cooperativas na ilha de Java, na Indonésia. O preço fica mais em conta porque é do produtor pra gente, ou seja, sem aquele monte de gente no meio do processo que encarece o produto pois cada um quer tirar uma fatia pra si. As favas são bem aromáticas, com um tom amadeirado distinto e um sabor bem concentrado, então acabo usando até menos e tendo resultados excelentes em receitas.
O frete internacional é bem caro, então por isso eu compro quando viajo pros EUA. Elas vem embaladas à vácuo então ficam minúsculas na mala. Quando chego aqui, eu as desembalo, guardo em porções menores à vácuo e vou abrindo conforme preciso usar, seguindo tudo isso aí que ensinei pra vocês, esse ritual, pra aproveitá-las ao máximo.
Vale a pena pelo preço? Um pacote de 120g (1/4 pound) tem umas 30 favas, com o frete interno nos EUA, considerando o dólar atual + IOF, faz com que cada fava saia por 6 a 8 reais. No Brasil, duas favas estão em torno de 40, 50 reais. Então, vale sim a pena, se você tiver essa oportunidade.


Mais coisas que você devia saber sobre a baunilha:

– Pra fazer 1kg de vagens curadas, marrons, daquelas que vamos usar no nosso bolinho, é preciso aproximadamente 5kg de vagens frescas, verdinhas. É porque elas perdem grande parte da água durante o processo de secagem, perdendo, assim, seu peso.
– A baunilha é a segunda especiaria mais cara do mundo, atrás apenas do açafrão (o dos pistilos, não o açafrão da terra em pó).
– Se você um dia abrir uma fava de baunilha e ver pontos brancos envolvendo as sementes, muito provavelmente são cristais de açúcares naturais da baunilha que se formaram. Não é mofo, fique tranquilo.
– A vanilina, o principal composto da baunilha e que dá aquele cheirinho característico, é antioxidante e inibe danos ao DNA.

 

Biblio-internet-grafia:

Cultivando orquídeas e ideias (para a foto da orquídia).
Comida & Cozinha – Ciência e Cultura da Culinária, do Harold McGee: livro maravilhoso.
Panificação e Confeitaria Profissinais, do Wayne Gisslen.
The Cake Bible, da Rose Levy Beranbaum, diva.

quinta, 23 de julho de 2015

Confeitaria 101: açúcar

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Mais um post sobre ingredientes da confeitaria. Sim, faz um tempão desde aquele gigante sobre farinha. Eu dei uma relaxada. Mas agora estou de volta para que vocês conheçam um pouco sobre o que faz todos nós mais felizes: açúcar.

confeitaria_acucar
O que é açúcar, afinal?
Açúcar, ou a sacarose, é a junção entre uma molécula de frutose e uma de glicose. Por isso, ele é um dissacarídeo e faz parte do grupo dos carboidratos – mais especificamente, um carboidrato complexo.
Ele é produzido de cana ou de beterraba e não, não há nenhuma diferença de sabor entre esses dois no produto final. O açúcar removido das plantas passa por vários processos de refinamento que vão desde ferver, centrifugar, evaporar, esquentar em vácuo, lavar no vapor, etc etc. Para chegar ao ponto branquinho que mais conhecemos, ele ainda é clarificado com ácido fosfórico e misturado com carbono ativado, que ajuda, ainda, a remover cálcio e magnésio da mistura. O resultado final é 99% sacarose. Quanto mais escuro for o grão do açúcar, mais impurezas ele tem. Não entenda como sujeira! Impurezas podem ser apenas o melaço das plantas ou o cálcio ou magnésio que mencionei antes, e não terra ou algo do tipo.

Como o açúcar funciona na culinária?
Além do óbvio propósito de adoçar um prato, o açúcar funciona de diversas maneiras numa receita. Ele confere maciez e textura. Lembra quando eu disse aqui que o glúten forma um tipo de malha no bolo? O açúcar ajuda a enfraquecer essa malha e evitar que a mistura fique dura.
Ele é responsável por parte da umidade de uma massa, pois os açúcares são substâncias higroscópicas, que é uma palavra difícil para quem atrai e retém água. Por causa dessa propriedade, ele também ajuda a ampliar a validade da comida, pois em um ambiente muito concentrado, as bactérias não conseguem se reproduzir com velocidade.
O açúcar é responsável, ainda, pela cor que os produtos finais têm, já que ele naturalmente muda de cor conforme esquenta (caramelo é prova disso). E também a ver com essa caramelização, está a crocância de alguns produtos, que é motivada pelo açúcar. Sabem aquela casquinha que forma no topo do bolo? É o açúcar caramelizado. Essa casquinha crocante some depois de um tempo em algumas receitas porque o açúcar entra em contato com a umidade do ar e, aos poucos, “derrete”.
E, se isso tudo já não fosse suficiente, sem o açúcar seu pão não cresceria direito porque ele serve de alimento para o fermento biológico.
É importante mencionar que, por conta de sua propriedade higroscópica, o açúcar é pensado como um ingrediente líquido quando formulamos uma receita. Um teste interessante pra entender isso é fazer uma receita de bolo sem o açúcar até o fim: perceba como a massa vai ficar muito, muito seca, como se faltasse mais líquido ali (eu fiz esse teste acidentalmente algumas vezes já, por esquecimento mesmo hehehe).

Existem tipos de açúcar? Quais são?
Sim. Existem os tipos “secos”, que seriam em grãos, e existem os tipos líquidos, como mel, xarope de glucose, caramelos, etc. Por enquanto, vou tratar das versões em grãos.

Açúcar cristal (granulated sugar): um dos tipos mais comuns nos nossos supermercados no Brasil. O grão tem geralmente 0.5mm. Em receitas de bolo, ele pode ser usado normalmente, mas costuma ser melhor para caldas. Isso porque com grãos maiores, ele pode não se dissolver completamente na massa do bolo. Eu sempre uso cristal nos meus bolos e costumo escolher a marca com os menores e mais brancos cristais possíveis.

Açúcar refinado (refined sugar/caster sugar): bem comum nos nossos supermercados também. Ele é mais fino que o cristal e costuma ser mais indicado para fazer bolos. Seus grãos menores (0.35mm) resultam em bolos com farelos mais finos e uma textura mais delicada. Isso porque quando os grãos são menores, há mais deles na mistura, o que amplia a área de contato que cria as bolhinhas de ar quando assado. Para merengues, por exemplo, é muito mais indicado usar o refinado porque ele vai derreter na mistura mais facilmente. Você pode fazer o refinado em casa, batendo o cristal por alguns minutos no liquidificador ou processador.

Açúcar mascavo (brown sugar/light brown sugar): nada mais é que açúcar refinado com melaço adicionado. É possível substituir açúcar branco (cristal ou refinado) por mascavo, mas alguns ajustes devem ser feitos para obter o mesmo produto final. Pra começar, o mascavo pra ser medido precisa ser compactado dentro da xícara ou colher. Ele pesa mais do que o açúcar branco, exatamente porque tem melaço misturado nele. O açúcar mascavo também tem mais umidade, por causa do melaço: ele tem cerca de 2% de água enquanto o branco tem somente 0.5%. Usando ele na receita, o sabor final vai ser diretamente influenciado, deixando um sabor levemente caramelado, sem contar no mais perceptível que é a cor do produto – ou seja, se estiver fazendo um bolo branco, não use o mascavo, senão ele não vai ficar branco.

Açúcar impalpável (powdered sugar/confectionary’s sugar): um açúcar muito refinado (em alguns países, inclusive, é informado o número de vezes do refinamento, sendo o normal geralmente 10x) e com no mínimo 3% de sua composição de amido de milho misturado, para impedir que empelote. Tem quem diga que, pra fazer açúcar impalpável em casa, é só bater o refinado no processador ou liquidificador e misturar o amido de milho. Infelizmente, é ilusão. Açúcar impalpável só pode ser feito corretamente na indústria – ou se você tiver uma centrífuga de magnésio com dez níveis em casa para processar os cristais. Você pode simular com o açúcar de confeiteiro e acrescentar o amido de milho, peneirando várias vezes para misturar bem, mas ainda assim não será o mesmo do comprado pronto.

Açúcar de confeiteiro: esse é um tipo de açúcar que só vejo por aqui. Algumas marcas tentam vendê-lo como se fosse o correspondente ao impalpável, mas, como eu já disse aqui em cima, só é impalpável se tiver amido e se tiver sido suficientemente processado. Pra saber a diferença, eu amasso um pedaço do saco com o açúcar dentro entre meus dois dedos: se eu sinto os cristais com clareza, ele não é impalpável. Nas fotos, o impalpável é o da colher do meio e o de confeiteiro é a última colher. Se você olhar com atenção, dá pra perceber que o primeiro é praticamente uma farinha e o outro empelota. Honestamente, não uso o de confeiteiro pra nada, mas escuto algumas pessoas dizerem que conseguem os mesmos resultados do impalpável com ele – e ele é mais acessível, já que o impalpável só vende mesmo em lojas de confeitaria. Teste e veja o que acha!

Açúcar gelado: um tipo de açúcar que não derrete com a umidade. Como o açúcar é solúvel em água, a umidade da maioria das coisas que fazemos na cozinha faz com que ele derreta. Então, geralmente, é assim que o açúcar cristal em volta do brigadeiro desaparece depois de um tempo, e por isso que salpicar açúcar impalpável no bolo faz ele desaparecer também. O açúcar gelado não tem dessas, ele fica lá bonitão parecendo neve. Vende em casas de confeitaria com esse nome mesmo, açúcar gelado.

confeitaria_acucar
E o açúcar demerara? O turbinado? Etc etc?
São outros tipos de açúcar, em sua maioria apenas variando os níveis de processamento pelos quais eles passaram. Eu não entrei muito no mérito porque eu mesma jamais usei esses tipos. Eles não são exatamente acessíveis por aqui. Mas se quiser usá-los, é só você levar em conta o nível de umidade em cada um, porque isso afetará diretamente o produto final. Leia a composição no saco do produto, isso é muito importante. A gente devia fazer isso sempre, inclusive, com tudo que vamos colocar pra dentro do nosso corpo. Love your body!

Como faço para medir açúcar para uma receita?
Você pode pesar, mas lembre-se do que eu falei sobre o peso do mascavo, por exemplo. Para medir em xícaras ou colheres, encha seus medidores às colheradas e depois nivele com uma espátula ou as costas de uma faca. No caso do mascavo e outros mais úmidos, você precisa dar uma certa “apertadinha” no açúcar dentro da xícara.

Preciso peneirar o açúcar?
Se for o cristal ou o refinado, eu não peneiro, praticamente nunca. Se você armazenar o açúcar corretamente, ele não vai empelotar muito, então não vejo necessidade. No caso do impalpável, aí sim eu peneiro, porque ele costuma ter bolotinhas agrupadas de açúcar no saco e gosto de facilitar a mistura no buttercream ou no glacê real.

Como devo armazenar o açúcar? E quanto tempo ele dura?
Ele deve ser mantido em potes hermeticamente fechados, de preferencia aqueles com borrachinhas nas tampas, em locais secos e em temperatura ambiente. Para o mascavo, é ideal mantê-lo no próprio saco de onde ele veio (lacre bem removendo o ar e fechando com fita adesiva), ou, se não der mais pra usar o saco, em um pote BEM vedado, pra manter a umidade natural do açúcar. Conservando do jeito certo, o açúcar pode durar praticamente pra sempre – ou bem uns dois anos.

Mais coisas que você devia saber sobre açúcar:
– Açúcar é usado no asfalto, para retardar o tempo que a mistura de concreto e cola leva para secar.
– Durante a guerra, os soldados recebiam uma mistura de leite e açúcar, que durava muito mais tempo no fronte de batalha do que o leite tradicional, por causa da concentração do líquido causada pelo açúcar, que impedia as bactérias de se reproduzirem. Foi assim que nasceu o nosso amado leite condensado.
– Também existem produções de açúcar que não provêm da cana ou da beterraba, como das tamareiras e do bordo, que produz o famoso xarope do bordo (maple syrup) que é marca registrada do Canadá.

Post grande, eu sei. Leiam com carinho! Se acham isso muito, saibam que eu li umas 70 páginas sobre açúcar em quatro livros e muitos sites pra resumir nisso tudo aí. Nas fotos que tirei, você pode ver a segunda colher com um açúcar levemente escuro. Não é mascavo, é açúcar baunilhado, que eu faço seguindo a receita da Dani Noce e estou sempre usando. Dica boa!

Biblio-internet-grafia:
ChefSteps – Sugar: esse site, inclusive, tem vários textos interessantíssimos sobre culinária, gosto bastante!
Caramelodrama – Série ingredientes: Açúcar: a Carolina tem um post muito bom sobre açúcar com algumas informações adicionais.
Comida & Cozinha – Ciência e Cultura da Culinária, do Harold McGee: esse livro é apenas perfeito e devia ser obrigatório.
Panificação e Confeitaria Profissinais, do Wayne Gisslen.

Ju Morgado

Sou uma jornalista com mais paixões do que o tempo me permite cultivar. Descobri na cozinha meu paraíso, meu refúgio depois de um dia cansativo ou estressante. É quase um vício, realmente. Não apenas cupcakes, mas qualquer coisa que eu ache interessante, desafiante ou divertido de fazer. Apesar do nome do blog, não é só de cupcakes que eu vivo. Amo fazer risotos, de todos os sabores, e simplesmente amo qualquer receita que envolva qualquer tipo de queijo.

A história do Cupcakeando

Não sei bem quando ou porquê eu comecei a me interessar por cozinhar. A lembrança mais antiga que tenho é de minha mãe me puxando para a cozinha, para me ensinar a fazer arroz branco, comum, e o molho de macarrão com tomates frescos que só ela sabe temperar.
Tudo que eu sei de cozinha aprendi de um jeito: prática. Minhas receitas são criadas da minha cabeça e implementadas dos meus testes ou então milimetricamente medidas de fontes confiáveis.
Tenho uma verdadeira paixão por cupcakes, pois acho que eles reúnem o que há de melhor na cozinha: manteiga, açúcar, fofurice, capricho e criatividade. Tudo na medida certa para uma pessoa saborear. Gosto de tentar coisas novas com esses pequenos e descobrir jeitos diferentes de decorá-los. Quando não estou fazendo nada, começo a pesquisar e estudar receitas, teorias e decorações de cupcakes. É, isso mesmo, estudar.
O blog também é uma maneira de praticar minha segunda paixão: fotografia. Sou daquelas que, enquanto passeia pelo parque, começa a achar ângulos de fotos que ficariam maravilhosas. Assim como eu estudo gastronomia e culinária, sento para ler sites e livros enormes sobre fotografia.

O gerúndio

Não fale mal dele antes de conhecê-lo melhor. Já ouvi por aí dizerem que jornalista jamais, sob nenhuma circunstância, pode usar o gerúndio. A justificativa fez sentido: “você usa o gerúndio quando não quer dar nenhuma previsão de término para sua a ação”, o que, no jornalismo, é basicamente como deixar o leitor esperando para sempre por aquela obra sanitária que o governo prometeu.
Mas foi exatamente a mesma explicação que me convenceu a usar o gerúndio para o nome do blog: eu não tenho previsão de fim para minha produção de cupcakes, jamais pretendo parar de fazê-los ou de cozinhar em geral. Se não tiver mais encomendas, será para amigos. Se meus amigos enjoarem, será para minha família. Quando minha família me dizer “CHEGA”, será para mim mesma (e talvez meu corgi. Eu tinha uma husky siberiana linda, que infelizmente se foi, mas vai estar sempre na minha memória). Porque é o que eu amo fazer e o que me deixa feliz.

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